Crítica | Guerra Civil (Civil War)

Nota
5

Diante do cenário bélico mundial atualmente, a produtora A24, que se encontra em constante ascensão e abarcando cada vez mais gêneros em suas produções, lança o seu novo sucesso nos cinemas brasileiros: Guerra Civil de Alex Garland (Aniquilação), uma verdadeira incursão do gênero distópico, que desafia as expectativas e consegue prender o espectador na cadeira desde os primeiros minutos. A trama retrata um futuro caótico para os Estados Unidos, que se encontram em uma guerra civil implacável, dividindo o país na figura de estados separatistas. A trama segue a fotojornalista de conflitos Lee Smith, interpretada brilhantemente por Kirsten Dunst (Homem-Aranha), e pelo redator Joel, desempenhado por um convincente Wagner Moura (Gato de Botas 2: O Último Pedido), em uma perigosa missão para conseguir a última entrevista com o presidente dos EUA (Nick Offerman). O elenco de apoio, incluindo Cailee Spaeny (Priscilla) e Stephen McKinley Henderson (Duna), complementa perfeitamente o duo principal, elevando ainda mais a qualidade do filme.

O papel do jornalista emerge como um elemento central da trama, proporcionando uma lente perspicaz através da qual o espectador testemunha os horrores e complexidades do conflito. Diferente de outros filmes do gênero que se utilizam de fotografias para causar sentimentos, mas tendo o papel do fotojornalista escanteado, aqui ocorre uma subversão, sendo o cerne da trama e mostrando as nuances mais sombrias de quem segue por esse caminho. Ao longo da narrativa, o filme examina de perto o papel da imprensa em tempos de crise, destacando a importância da verdade, da integridade e da coragem jornalística em meio ao caos e à desordem.

Sob a liderança da fotojornalista Lee Smith e do redator Joel, o grupo de jornalistas embarca em uma jornada perigosa pelo país dilacerado pela guerra civil. Sua missão de documentar a realidade brutal da guerra não apenas os coloca em contato direto com o caos e a destruição, mas também apresenta dilemas éticos e morais, além de um conflito geracional. De um lado temos Lee, uma fotojornalista já marcada por anos de conflitos e que se mostra fria, calculista e focada mesmo diante das piores crises. Do outro temos Jessie (Cailee Spaeny), uma novata na área, que se inspira em Lee e decide fazer de tudo para embarcar nessa viagem mesmo não tendo o mesmo feeling. O contraste das duas personagens, seus estilos de atuação, é constantemente mostrado. A cautela e experiência de Lee acaba balançada, seja positivamente e negativamente, diante da impulsividade de Jessie.

Esse contraste também é visto em Joel e Sammy (Stephen McKinley Henderson), sendo o segundo um jornalista veterano que está em busca de uma última matéria importante e decide embarcar junto ao impulsivo Joel nessa viagem. As atuações são o ponto alto do filme, com Dunst e Moura liderando o elenco com maestria. A dinâmica entre os dois personagens principais, marcada pela seriedade de Lee e pela impulsividade de Joel, adiciona uma camada adicional de tensão ao enredo.

Guerra Civil oferece uma representação vívida de uma América dilacerada pelo conflito interno, servindo como um prenúncio inquietante diante dos cenários políticos vigentes. Ao retratar um país dividido por facções e submetido à violência e ao caos, o filme reflete as tensões e divisões cada vez mais pronunciadas na sociedade contemporânea. Com suas imagens impactantes e temas provocativos, Guerra Civil alerta para os perigos de um extremismo político e da polarização, ecoando os desafios enfrentados pela nação e lançando luz sobre os caminhos potencialmente sombrios que o futuro pode reservar. Não choca ser lançado como um alerta em época de eleições no EUA.

Alex Garland tece uma narrativa que transcede o típico filme de ação, mergulhando fundo nas complexidades de uma sociedade fragmentada e em colapso. Enquanto acompanhamos a jornada do grupo de jornalistas em direção à capital, somos confrontados com imagens grotescas de um país despedaçado pela guerra e pela política populista. A falta de contextualização inicial desafia o espectador, o jogando no meio do caos já em curso, sem a necessidade de qualquer outra explicação, o forçando a decifrar os detalhes, teorizar com as migalhas apresentadas e resultando em uma experiência cinematográfica imersiva e provocativa.

A ambientação desoladora e os cenários impressionantes retratam vividamente um país à beira do colapso, enquanto o trabalho de edição de som mergulha o espectador na cacofonia ensurdecedora da guerra. Garland demonstra sua habilidade única em criar atmosferas densas e inquietantes, transportando-nos para um futuro distópico que parece assustadoramente próximo.

Apesar de Guerra Civil se desviar do estilo mais “alternativo” tão associado à A24, o filme não perde sua profundidade e complexidade. Em vez disso, oferece uma perspectiva única sobre questões políticas e sociais contemporâneas, desafiando-nos a refletir sobre os perigos do extremismo e a importância da imprensa livre.

Em última análise, Guerra Civil é um triunfo para a A24 e para Alex Garland, uma obra cinematográfica ousada e provocativa que não apenas entretém, mas também nos faz questionar o estado atual e político de uma das maiores potências mundiais e como é possível sua implosão, tudo isso sob as lentes de uma boa câmera fotográfica.

 

Pernambucano, jogador de RPG, pesquisador nas áreas de gênero, diversidade e bioética, comentarista no X, fã incontestável de Junji Ito e Naoki Urasawa. Ah, também sou advogado e me arrisco como crítico nas horas vagas.

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