Crítica | O Turista (The Tourist)

Nota
3.5

“Embarque às oito e vinte e dois na Garen de Lyon, pegue alguem com minha altura e corpo e faça-os acreditar que sou eu.”

Elise Clifton-Ward vem sendo perseguida pela Scotland Yard, que tem o apoio da polícia francesa, por ser a única pista que pode levar ao paradeiro de Alexander Pearce, um velho amante de Elise, que deve 744 milhões de libras em impostos de dinheiro roubado da máfia russa e que possivelmente realizou uma cirurgia plástica para mudar completamente sua aparência. Sob o comando do Inspetor John Acheson, a Scotland Yard está caçando Pearce há anos, e o momento que Elise recebe uma carta com instruções de escolher um homem, a bordo de um trem para Veneza, e transforma-lo em uma isca para a polícia inicia uma enorme caçada, que coloca um alvo nas costas de Frank Tupelo, um professor de faculdade dos Estados Unidos, que passa a ser observado pela polícia e ameaçado pelos capangas de Reginald Shaw, um gângster de quem Pearce roubou 2,3 bilhões de dólares.

Um filme sobre uma caçada policial e espionagem e um cenário espetacular como Veneza, não tem como errar ao construir um roteiro para um filme como esse, mas as vezes é possivel não ser impecavel, como é o caso do filme dirigido e co-roteirizado por Florian Henckel von Donnersmarck. O filme do alemão pode ser bonito, pode ser romântico, mas infelizmente ele não é tão bem escrito quanto um filme protagonizado por Angelina Jolie e Johnny Depp deveria ser. Florian ganhou um Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2006 por A Vida dos Outros, um filme que fala sobre o drama de um espião da Alemanha Oriental que se vê envolvido na vida de um casal de posses, mas infelizmente ele não repete o sucesso ao roteirizar um novo filme de espionagem em 2010, onde, é inegavel, o alemão se destaca pela sua direção mas se prejudica justamente pelo roteiro, que em certos momentos parece previsivel e arrastado. Fica clara a assinatura do diretor no decorrer do longa, que puxa muito para o lado do misterio e do subliminar, algo que ele exalta o tempo todo ao criar simbologias em tela que até engrandecem o longa, mas não salvam o roteiro, e tudo isso acaba podando muito do estilo de atuação de Jolie e Depp.

No papel de Elise temos Jolie, uma atriz sedutora e extremamente dramática que recebe uma personagem que se perde no meio da trama, que muda constantemente de persona, o que impede que sua interprete atinja todo o potencial obscuro que a protagonista merecia ter. Jolie já possui algumas espiãs em seu curriculo, o papel da escorregadia Elise seria fácil de ser desenvolvido por ela, é fácil enxergar todo o potencial de Jolie na cena do trem, a frieza, a leveza e o empoderamento de uma mulher que tem as redeas de sua vida sob controle e que sabe muito bem o que está fazendo, capaz de manipular todos ao seu redor para despistar a policia, mas toda essa fachada vai se desmontando no longa a medida que a personagem vai sendo transformada em um peça de xadrez, como se ela fosse só um isca jogada no meio da caçada entre a policia e Alexander. Já Depp, que encarna o confuso Frank, não encontra no papel uma base para brilhar, seu personagem é indefeso, suscetivel e inocente, que se vê enredado pelas tramas de Elise e vai pouco a pouco se apaixonando pela mulher, mas faltou espaço para o ator aplicar seu humor, aquele humor que daria uma leveza maior ao seu personagem, deixaria ele mais concreto e crivel, algo que só desaba a medida que Frank vai se transformando em algo que não se encaixa no seu perfil. Paul Bettany, que interpreta Acheson, some na trama, o ator que tem uma capacidade gigantesca parece ser esquecido pelo roteiro, perdendo completamente o foco e sendo jogado de um lado para o outra do desenvolvimento da trama, se mostrando essencial para o enredo, mas nunca interferindo diretamente em seu curso.

Recheado com perseguição e tiros, O Turista promete uma ação que não entrega, tenta criar um romance sem se encaminhar para ser um filme dramático e tem um potencial de comédia que não aproveita, no final a estreia de Von Donnersmarck em Hollywood se torna morna, com os personagens que começam bem mas não conseguem aproveitar o potencial dos seus atores e acabamos se transformando em caricatos. Não há como negar que Jolie e Depp mereceram a indicação ao Globo de Ouro de atuação, mas também é facil entender por que não ganharam, restando ao filme ser considerado como um blockbuster de humor agradavel e executado de forma discreta. Apenas duas coisas seriam suficientes para garantir que a produção fosse um primor do cinema: uso maior de tecnologia, seja com tomadas de camera mais dinamicas ou com coreografias melhor executadas de perseguição, ou um roteiro mais intimista, que soubesse dosar a adrenalina nas cenas de ação e o clima ideal nas cenas de romance, com um tempero do humor canastrão que todos sabemos fluir como agua nas mãos de Depp. Com um elenco que deixa a expectativa nas alturas, o longa se perde, não envolve e não consegue sustentar a atmosfera de misterio que poderia ter, mesmo trazendo um plot twist elogiavel, a atmosfera não colabora para a entrega que o filme pedia e que poderia capturar seus expectadores.

 

Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.

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