Crítica | Avatar: O Caminho da Água (Avatar: The Way of Water)

Nota
4

“As florestas de Pandora são muito perigosas, mas o mais perigoso aqui em Pandora é você acabar se apaixonando demais.”

Mais de uma década se passou desde o banimento do Povo do Céu pelos Na’vi, a vida em Pandora voltou aos eixos, Jake Sully se tornou o chefe do Clã Omaticaya e, junto a Neytiri, construiu uma família formada pelo casal, seus filhos NeteyamLo’ak e Tuk e sua filha adotiva Kiri, nascida do Avatar adormecido da Dra Grace Augustine. Mas o passado sempre volta para cobrar suas dividas, e o passado de Sully volta na forma de uma nova expedição humana munida de Avatares implantados com a consciência resgatada do Coronel Miles Quaritch e sua equipe. Agora Sully e Neytiri precisam abandonar o conforto de seu clã e se lançar numa aventura imprevisível, pedindo abrigo ao Clã Metkayina, o povo do recife da costa leste de Pandora, e sendo obrigado a aprender novamente a viver dentro dessa nova sociedade.

Anunciada desde 2010, a tão esperada sequência do sucesso de James Cameron atrasou por doze anos devido à necessidade de desenvolver novas tecnologias para filmar cenas de captura de performance debaixo d’água, o que possibilitou que o cineasta trabalhasse mais a fundo no roteiro, pré-produção e efeitos visuais, uma atitude que pode dividir bastante opiniões. Com 190 minutos de duração, o filme de Cameron é um dos maiores exemplos de resultado complexo de se analisar, por uma lado a produção prova a necessidade do adiamento ao nos entregar uma experiencia visual espetacularmente magnifica e imersiva, somos engolidos pelas belezas submarinas de Pandora e fica cada dia mais claro o trabalho que Cameron teve ao construir uma mitologia extremamente palpável, criando uma fauna completamente inédita para essa nova região e até claras diferenças anatômicas e evolutivas entre os Omaticaya (possuem um corpo próprio para escalar e andar entre galhos e arvores) e os Metkayina (que possuem caudas próprias para nadar e conseguem ficar submersos por horas). Por outro lado, talvez o excesso de tempo para trabalhar o roteiro tenha permitido que Cameron exagerasse na trama e a alongasse além do necessário, nos colocando por horas para ver uma história que talvez pudesse ter sido resumida em 90 a 120 minutos.

Gravado, simultaneamente com o terceiro filme da franquia, em 2017 e concluído no final de setembro de 2020, a longa traz um Sully mais velho, mais integrado à sociedade Omaticaya e passando por uma transformação interior, agora o grande Toruk Makto precisa enxergar o momento de abrir mão do comando de seu povo para colocar sua função de pai como prioridade, proteger sua família e seu povo abrindo mão do seu próprio conforto e permitir que seus filhos comecem a crescer verdadeiramente. Com uma trama onde família é o tema central, os sacrifícios de Sully e Neytiri por seus filhos acaba sendo o grande catalisador do enredo, o que nos permite ver um lado muito mais inseguro de Sully e um lado muito mais feroz de Neytiri, um pai que tem medo dos riscos que oferece a seus filhos e uma mãe disposta a tudo para não permitir que seus filhos sejam feridos. Sam Worthington volta com toda a força ao entregar toda a sua alma na atuação, principalmente pela forma como ele precisa complementar o gestual e o facial para que sua atuação ultrapasse a captura de movimentos, onde gestos sutis acabam se perdendo. Zoë Saldaña nos toca no fundo da alma com a evolução da princesa Omaticaya, ela claramente foi transformada pela maternidade e tudo parece amplificado ao máximo agora, a levando a ter um temperamento muito mais defensivo e a guarda sempre alta. Sigourney Weaver retorna na pele de Kiri, que acaba se tornando fonte de inúmeras teorias e ganha uma construção minuciosa capaz de basear desdobramentos essenciais no próprio filme e até em suas sequencias.

Kate Winslet é uma das mais gratas surpresas do filme, no papel de Ronal a atriz assume o cargo de encarnar a esposa grávida de Tonowari (Cliff Curtis), o líder dos Metkayina, uma mulher forte, decidida e que cria ótimos embates ideológicos com Neytiri, ela enxerga os riscos de abrigar a família com “sangue de demônio” (denominação dada aos híbridos de Avatar e Na’vi) e assume uma atitude maternal para seu povo, nos dando a visão mais crua da dor que os habitantes desse planeta sentem pela chegada dos humanos. É durante a vivencia com os Metkayina que os filhos de Sully e Neytiri começam realmente a serem desenvolvidos, nos presenteando com a trama cativante da aproximação de Lo’ak e Tsireya, filha de Tonowari e Ronal, e toda a subtrama envolvendo os tulkun e, principalmente, Payakan, nos dando uma clara conexão sobre o poder destrutivo que os humanos trouxeram para essa região e a dor que todos os habitantes de Pandora carregam, uma construção que não só prepara o terreno para o grandioso ato final como nos faz refletir sobre nossa pegada vergonhosa em nosso mundo. Infelizmente o filme deixa a desejar quando o assunto é desenvolver as tramas da ‘reencarnação’ de Miles Quaritch e de Spider, personagens chave para os rumos do longa, mas que podem muito bem ser melhor explorados na terceira parte da franquia.

Deslumbrante e inesperado, Avatar: O Caminho da Água tinha tudo para superar as expectativas e se consolidar acima do seu antecessor, mas ainda falta achar uma identidade única e um roteiro menos cansativo. A fotografia de Russel Carpenter só aumenta ainda mais toda a experiencia, é como se o executivo transformasse a viagem pelo oceano de Pandora num documentário da vida marinha gravado com os melhores equipamentos existentes no mundo, uma perfeição a cada detalhe, com takes minimamente planejados e executados. Infelizmente, apesar de ser uma produção que claramente tem grandes chances de levar Oscar de Fotografia e até Efeitos Visuais, a obra deixa a desejar no roteiro que se mostra batido, extenso ao extremo e sem inovações, dando a impressão que se apoia muito mais nos outros filmes para desenvolver personagens essenciais. Ao fim, uma coisa é certa, Avatar 2 elevou bastante o conceito visual e o universo da franquia, o que vai deixar um duro trabalho para Cameron, que pretende superar ainda mais esse patamar com os vindouros três a cinco filmes.

 

Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.

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