Crítica | Babilônia (Babylon)

Nota
3.5

“- Como está a festa de Don Wallach?
– Um estouro.”

Uma grande orgia em forma de festa foi organizada por Don Wallach em 1926, em Belair. Uma festa sem limites morais organizada pelo chefão da Kinoscope, mas que acabou sendo o ponto de virada para um grupo de pessoas que iriam iniciar, a partir daquele dia, a protagonizar mudanças significativas na história do cinema hollywoodiano. De penetra na festa, Nellie LaRoy acaba sendo escolhida para substituir uma atriz vitima de overdose em uma filmagem no dia seguinte, a aspirante a atriz que era tratada por todos como a desclassificada do bairro acabou encontrando a oportunidade que precisava para mostrar seu talento e construir uma gigantesca carreira como sex symbol do cinema mudo. Fazendo um bico na festa, Manny Torres acaba conhecendo e se apaixonando por Nellie, o que a ajuda a entrar na festa cheia de nudez, drogas e prostituição, e é também durante a festa que ele acaba sendo incumbido de levar Jack Conrad, o galã dos filmes épicos da Metro-Goldwyn-Mayer que está bêbado, para casa e acaba sendo contratado como seu assistente e faz tudo nos filmes de George Munn. Outras grandes personalidades que cruzam suas presenças na festa e nos bastidores do cinema são Lady Fay Zhu, uma cantora de cabaré que trabalha como escritora de intertítulos em filmes da era silenciosa, Sidney Palmer, um trompetista de uma banda de jazz que acaba se tornando um astro dos filmes musicais, e Elinor St. John, uma jornalista que conta tudo que acontece nos bastidores de Hollywood em sua coluna de fofocas na revista Photoplay.

Não tem como não criar expectativas quando se ouve falar de Damien Chazelle dirigindo e roteirizando um drama de época ambientado na era de ouro de Hollywood. Nos levando por uma jornada que começa na década de 20 e vai transpassando décadas, o longa nos guia através da queda do cinema mudo até a ascensão dos filmes falados, tudo através de um enredo focado em histórias e pessoas que se conectam graças às enredadas coincidências do cinema estadunidense. Nos apresentando personalidades reais contracenando com amalgamas inspirados em grandes nomes da história do cinema, o filme nos presenteia com John GilbertIrving Thalberg, Anna May Wong, Marion Davies, Clara Bow, e tantos outros, numa grande construção metalinguística e inspiracional que até lembra uma versão mais ousada e caótica de La La Land, que garantiu alguns Óscares, incluso o de direção a Chazelle. Com uma trilha muito bem escolhida, o longa nos leva a vivenciar diversas emoções ao mesmo tempo, criando uma sinestesia empolgando que nos carrega pelos 189 minutos de pura adrenalina, repleta de encontros e desencontros entre os seis personagens que retratam o lado mais escuro e sem escrúpulos de Hollywood.

Entregando todo o potencial de atuação, a produção traz um elenco de peso em paralelo com alguns nomes menos conhecidos, mas todos parecem prontos para entregar um primor escandaloso que é justamente o que torna o filme tão especial. Margot Robbie no papel de LaRoy entrega um trabalho bastante visceral, provando ser capaz de entregar um trabalho avassalador em qualquer papel de qualquer filme, mesmo que ainda seja possivel enxergar alguns trejeitos e vícios. Ela é uma atriz em ascensão, que encontra na vulgaridade sua marca e cativa cada vez mais fãs, mas ao mesmo tempo se percebe em risco quando o cinema falado começa a exigir um vocabulário mais trabalhado, uma imagem menos sexualizada e uma paciência que ela não possui. Brad Pitt dá todo o seu sangue como Conrad, com uma trama extremamente reflexiva e cheia de camadas, que toca nosso emocional ao abordar sobre obsolescência dos atores. Ele é um ator visionário e capaz de tudo para se manter no auge, mas acaba esbarrando em uma crise existencial, vendo sua carreira em queda e precisando aprender a lidar com a rejeição e suas emoções. Diego Calva completa o trio principal no papel de Manny, um novato das telonas que nos surpreende com sua evolução em cena, indo de um humilde faz tudo, contido em cena, até um influente nome do cinema, pronto para se impor e defender suas ideias. Ele é quem nos entrega tramas paralelas cheias de representatividade, enxergando a mulher dentro de LaRoy, o potencial de Palmer e até as peças que faltavam para transformar o cinema. Além do trio, o cenário completo se forma com a ajuda de diversas outras atuações como as de Jean Smart, Lukas Haas e Tobey Maguire, nomes que tornam a trama mais real e a evolução mais caótica.

Carnal e corajoso, Babilônia é um show de aleatoriedades que diverte ao mesmo tempo que é repleto de críticas incisivas que chegam a doer em nossa alma e consciência, talvez ele se prejudique muito por ser um filme de nicho, feito diretamente para os fãs do cinema e que vão se deleitar com as nuances audaciosas dos bastidores da evolução do cinema. Por outro lado, já é uma fato que filmes que abordam o cinema de forma metalinguística conseguem entrar facilmente entre os fortes concorrentes do Óscar, e até ganhar alguns prêmios, como já vimos acontecer com Mank (2020), Belfast (2021) e até o próprio La La Land (2016) de Chazelle. Desafiando os padrões, a trama mostra além do glamour, das roupas chiques, do dinheiro e da fama, nos cativando com todo o teor trágico, violento, chocante, tenso, absurdo e emocionante da verdadeira vida dos astros de Hollywood. Infelizmente o filme sofre pelo seu ritmo, que não sabe distribuir bem o seu foco narrativo e perde muito a nossa atenção pela forma como se alonga demais, chegando ao ponto que, em meados do seu penúltimo ato, estamos torcendo para que tudo acabe logo, cansados de tanta história e desejando chegar logo ao final, um final que, ouso dizer, chegamos a desejar que não existisse dada a extravagancia e incomodo pela frenética pontuação do roteiro, que mais parece um egocêntrico ato de auto exaltação que poderia ser facilmente descartado.

 

Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.

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