Review | Blood & Water [Season 2]

Nota
4

“Phume está viva!”

A busca de Puleng por respostas sobre o desaparecimento de Phume abalou profundamente os muros do Colégio Parkhurst — e, principalmente, a vida de Fikile Bhele. Ao fim da temporada anterior, Puleng finalmente revelou o motivo de sua obsessão: Fikile é, possivelmente, Phume. Agora, semanas após a grande revelação, Fikile tenta assimilar essa nova realidade, mas o medo de investigar a fundo suas origens a paralisa. Enquanto isso, Puleng sofre com a incerteza: sua possível irmã vai aceitar a verdade ou vai continuar presa ao conforto de uma vida construída sobre mentiras? Mas esperar não é uma opção. Um novo ano escolar traz novas pistas, novas ameaças e reviravoltas ainda mais perigosas. Puleng mergulha mais fundo no mistério que envolve o sequestro ocorrido há 17 anos e acaba se aproximando de figuras que complicam ainda mais a trama: a sombria Ponto da Graça, o passado obscuro de seu pai, os segredos do pai de KB e o surgimento de uma mulher misteriosa que pode ter mais conexões com tudo do que aparenta. A jornada continua — e agora, mais do que nunca, a verdade pode custar caro.

O sucesso da primeira temporada de Blood & Water garantiu sua renovação oficial pela Netflix em junho de 2020, agora com sete episódios de cerca de 45 minutos e com um time de roteiristas ampliado. A segunda temporada também marcou a entrada de Thati Peele na equipe de direção, contribuindo para a evolução estética e narrativa da série. Um novo ano escolar se inicia, trazendo novos desenrolares e rostos inéditos, enquanto a busca de Puleng pela verdade permanece como força motriz — ainda que, desta vez, o roteiro escolha frear a trama central em certos momentos para dar espaço ao desenvolvimento de subtramas que haviam sido apenas esboçadas anteriormente. Puleng tenta se aproximar de Fikile e construir com ela um vínculo de confiança, mas esse esforço é rapidamente abalado com o surgimento de uma medida protetiva que impede o contato direto entre as duas. A tensão emocional se intensifica, e a busca por respostas se torna ainda mais delicada diante da distância forçada entre as possíveis irmãs.

Paralelamente, a temporada se abre para os dramas de outros estudantes de Parkhurst. KB, após lançar seu primeiro hit, inicia uma busca determinada por seu espaço na cena musical, o que o coloca em rota de colisão com o pai, levando os dois a viverem uma verdadeira guerra fria doméstica. Já Reece finalmente ganha a profundidade que merecia: por trás da imagem da garota fútil da primeira temporada, revela-se uma jovem marcada por traumas, que cuida sozinha da mãe com transtornos mentais. Essa nova camada da personagem a insere em uma trama mais densa e perigosa, na tentativa desesperada de conseguir dinheiro para a internação psiquiátrica da mãe — o que a leva mais fundo no tráfico, agora sob riscos muito maiores. Chris, por sua vez, começa a ganhar mais espaço de tela ao se envolver em uma relação a três com Zama e Mark. A princípio tratado com leveza, o triângulo amoroso logo impõe dilemas profundos: Chris é o único elo entre os dois parceiros e precisa confrontar a idealização de que tudo será fácil. À medida que os desconfortos emergem e as inseguranças afloram, o roteiro acerta ao mostrar que o afeto, em qualquer configuração, exige maturidade, empatia e diálogo.

A temporada também introduz dois personagens que prometem mexer ainda mais com a dinâmica de Parkhurst: Janet Nkosana (Zikhona Sodlaka) e seu filho Sam Nkosana (Leroy Siyafa). Janet chega como a nova conselheira da escola, encarregada de acompanhar Fikile enquanto a jovem começa a enfrentar as consequências emocionais e sociais de seu relacionamento com Chad Morgan — o treinador de natação casado com quem manteve um romance na temporada anterior. No entanto, Janet não está ali apenas por motivos educacionais. Logo se revela que ela possui conexões obscuras com a organização Ponto da Graça, e suas sessões com Fikile passam a servir como ferramenta de manipulação e controle, impedindo que a nadadora se aproxime da verdade sobre sua origem. Além disso, Janet demonstra um interesse insistente em se aproximar de Puleng, o que desperta ainda mais desconfiança sobre suas intenções.

Enquanto isso, Sam, seu filho, chega à trama com uma missão bem diferente: tornar-se o novo interesse romântico de Fikile. Alheio aos planos sombrios da mãe, Sam é atraído por Fikile à primeira vista e começa a desempenhar um papel importante em sua reconstrução emocional. Sua presença gera tensões entre os amigos de Fiks, ao mesmo tempo em que oferece à jovem um novo ponto de apoio após o colapso de sua antiga realidade. A relação entre os dois adiciona um novo tom de vulnerabilidade e esperança à trajetória de Fikile, mesmo com o perigo rondando silenciosamente por meio de Janet.

Com sua segunda temporada, Sangue e Água reforça ser uma série adolescente com ambições maiores. Ao expandir seu universo narrativo, a trama equilibra bem a continuidade da investigação central com o aprofundamento de subtramas que antes pareciam esquecidas. O crescimento de personagens como Reece, Chris e até KB dá mais consistência ao conjunto, enquanto os novos rostos — Janet e Sam — adicionam camadas de tensão, afeto e perigo. Ainda que em certos momentos a temporada escolha desacelerar a trama principal, isso nunca soa como um desvio, mas sim como uma estratégia para construir uma base emocional mais sólida para os personagens e suas motivações. O suspense segue eficiente, com boas reviravoltas e relações que oscilam entre o afeto e a manipulação, sempre nos mantendo atentos às intenções por trás de cada gesto. E mais uma vez, a representatividade racial é um destaque fundamental: é potente assistir a uma série com elenco majoritariamente negro, ambientada na África do Sul contemporânea, que não coloca o racismo como tema central. Aqui, a negritude é presença, protagonismo e complexidade — e isso, por si só, já é um passo importante.

 

Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.

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