Crítica | Luiz Gonzaga: Légua Tirana

Nota
3

O sonho do pequeno Luiz Gonzaga (Kayro Oliveira) é ser um grande sanfoneiro como o seu pai, mas sua mãe desaprova completamente e luta diariamente contra isso. Mas os estímulos ao talento do garoto vêm de todos os lados, especialmente do seu padrinho, um dono de fazenda da região, que faz questão de levar o menino para tocar sempre que os pais dele deixam. Em meio a tentar convencer sua mãe de deixá-lo tocar sanfona como seu pai, Luiz vai entrar em diversas situações que irá lhe ensinar bastante coisa. Em meio a diversas anedotas poéticas sobre a infância e relação familiar de Luiz Gonzaga, os diretores Marcos Carvalho e Diogo Fontes trazem ao cinema Luiz Gonzaga: Légua Tirana, uma produção independente em parceria com a O2 filmes e produtoras de cinema do sertão pernambucano. 

Em entrevista para a Host Geek, o diretor Diogo Fontes, que está em seu primeiro trabalho como diretor, comentou que ele e Marcos Carvalho quiseram trazer uma cinebiografia poética, trazendo mais do imaginário e das vivências poéticas, quase como inventar crônicas baseadas nas músicas de Gonzaga para preencher as lacunas que faltaram na hora da pesquisa da criação do roteiro. De fato, Luiz Gonzaga: Légua Tirana se distancia bastante das cinebiografias atuais, especialmente agora que o cinema brasileiro acompanha a tendência mundial de produzir cinebiografias, pautadas pela mesma linearidade baseada nos fatos da vida, rápida infância, fase adulta, o sucesso da carreira, e o declínio ou a morte ou momentos difíceis da vida pessoal para criar um clímax para o filme. 

Ao contrário de todos as outras cinebiografias, o filme traz um enorme foco na infância de Luiz Gonzaga, o que é um ponto muito positivo, já que a atuação de Kayro Oliveira, na época com 10 anos, é muito natural e divertida, conseguindo se sustentar muito bem com atores consagrados, criando ótimos contrastes em cenas. Apesar disso, o filme se contradiz bastante por tentar retomar a linearidade tradicional de cinebiografias, com um Luiz Gonzaga a beira da morte no começo e no final do filme, o que é super dispensável já que não temos contato posterior com sua persona mais velha, mas um bom acerto é, após o crescimento do sanfoneiro, interpretado pelo ator Wellington Lugo e posteriormente pelo ator Chambinho do Acordeon, há um foco maior no relacionamento do cantor com sua família que sempre foi conturbada.

Houve um equívoco conceitual na idealização do filme, onde ficou explícito que essas anedotas poéticas, que eram de fato as partes mais interessantes do filme, deveriam tomar lugar da linearidade tradicional de cinebiografias, o que acaba não acontecendo, mesmo sendo um problema que poderia ser facilmente resolvido com a edição e pós produção. Apesar do cantor Joquinha Gonzaga fazer o Luiz Gonzaga quando idoso, aparecendo apenas no início e no final, o que poderia ser realmente dispensável, a participação dele como narrador no entanto foi muito bem encaixada, primeiro pela semelhança de sua voz falada com a voz do Luiz Gonzaga, mas também por trazer mais a atmosfera de anedotas poéticas, quase como se estivéssemos lendo um livreto de cordel.

Por ser uma produção que levou 8 anos para sua conclusão, a edição do longa também mostra diversas inconsistências menores, mas a parte mais triste foi o uso de Inteligência Artificial para a criação de xilogravuras do elenco durante os créditos. O filme que foi feito por pessoas do sertão de Pernambuco poderia ter uma equipe pequena de xilogravuristas para fazer essa edição, mas claro que por ser uma produção independente, devido a altos custos para produzir algo artesanal assim talvez não fosse viável, mas é novamente algo que poderia ter sido descartado, já que a xilogravura não é utilizada em nenhum outro elemento estético do filme, nem em sua divulgação, nem durante o filme e nem nas fontes utilizadas. Mas mesmo com diversas inconsistências, a estética do filme é muito bem estruturada, com uma direção de fotografia excepcional, o longa consegue trazer a beleza das paisagens do sertão pernambucano com excelência. 

Luiz Gonzaga: Légua Tirana reúne por meio de diversas anedotas, uma perspectiva super divertida para a cinebiografia do Rei do Baião. O filme segue na contramão das cinebiografias tradicionais, trazendo um foco na infância de Gonzaga, e apesar das suas inconsistências, o filme tem um texto e roteiro bem amarrados com inúmeras cenas divertidas, principalmente pela interação de Kayro Oliveira, que mesmo em seu primeiro trabalho entregou naturalidade em sua atuação, com grandes nomes como Tonico Pereira, Claudia Ohana e Luiz Carlos Vasconcelos que complementam muito bem as cenas cômicas e elevam ainda mais a atuação de Kayro. Junto a isso, uma fotografia linda mostrando o melhor do sertão pernambucano com uma narrativa quase cordelista. Luiz Gonzaga: Légua Tirana é, como disse o seu diretor Diogo Fontes: um roteiro construído a partir de mosaicos. Que mesmo sendo imperfeito carrega a poesia na reconstrução da vida de um grande pernambucano, e dando voz e espaço ao cinema do sertão brasileiro.

 

Ilustradora, Designer de Moda, Criadora de conteúdo e Drag Queen.

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