Nota
The Magicians apresenta um mundo em que a magia é real, mas está longe de ser encantadora. A história acompanha Quentin Coldwater, um jovem introspectivo e obcecado pelos livros Fillory and Further, que descobre ser um mago ao ser aceito na misteriosa Brakebills University. Enquanto ele mergulha em feitiços e desafios ao lado de Alice, Penny, Eliot e Margo, sua melhor amiga de infância, Julia, é rejeitada pela escola e acaba trilhando um caminho sombrio entre magos marginais. No centro de tudo, a ameaça enigmática de uma criatura conhecida como a Besta paira sobre todos, dando início a uma narrativa que mistura fantasia, mistério, violência e sacrifícios inesperados.

The Magicians, baseada na trilogia de Lev Grossman, estreou no Syfy em 25 de janeiro de 2016 com “Unauthorized Magic” e se estendeu até 11 de abril de 2016, encerrando a primeira temporada com “Have You Brought Me Little Cakes”. Ao longo de 13 episódios, a série se estabelece como uma introdução densa ao seu universo, apresentando conceitos, personagens e mitologias que parecem familiares, mas rapidamente subvertem expectativas. O que poderia soar como um “Harry Potter adulto” revela uma narrativa muito mais sombria e complexa, abordando temas como trauma, vício e violência emocional, e deixando claro desde cedo que a magia aqui cobra um preço — e ele costuma ser alto.
A trama se divide entre a vida acadêmica em Brakebills, com Quentin (Jason Ralph), Alice, Penny e Eliot explorando feitiços, e a busca por respostas sobre Fillory – mundo mágico que sempre foi uma obsessão de Q. Paralelamente, Julia (Stella Maeve), amiga de infância de Quentin, é rejeitada pela escola e acaba mergulhando em um submundo de magia marginal, passando a treinar com os chamados “hedge witches”. Essa divisão é um dos pontos fortes e fracos da temporada: enquanto Brakebills entrega momentos de descoberta e encantamento, a jornada de Julia carrega um peso dramático muito maior, mostrando os custos emocionais e físicos de tentar acessar um poder que não lhe foi “concedido”. Tudo isso é costurado pela presença da enigmática Besta, criatura que aparece logo no piloto em uma cena chocante, interrompendo uma aula e deixando um rastro de violência que dita o tom para o restante da temporada.

O arco central gira em torno da identidade da Besta e das consequências do seu poder. Entre bibliotecas secretas, feitiços proibidos e loops temporais, os episódios vão gradualmente revelando um quebra-cabeça que envolve os Chatwin – as crianças protagonistas dos livros de Fillory – e a misteriosa Jane, que manipula o tempo para tentar impedir a criatura. Episódios como “Minor Mendings” (1×02) e “Impractical Applications” (1×04) introduzem os desafios mágicos em Brakebills, enquanto “The Writing Room” (1×08) mergulha no lado mais sombrio da mitologia, explorando a mansão dos Chatwin e deixando claro que Fillory não é o lugar “mágico e perfeito” dos livros. Essa mistura de fantasia e terror psicológico se intensifica até chegar ao episódio final, que entrega um clímax brutal, sangrento e repleto de consequências – algo que pega muita gente de surpresa.
Entre as atuações, Jason Ralph conduz Quentin com uma vulnerabilidade convincente, ainda que sua melancolia em excesso o torne por vezes irritante – algo que a própria série parece reconhecer. Olivia Taylor Dudley se destaca como Alice, a aluna prodígio, cheia de talento e segredos, que rapidamente se torna o coração moral do grupo e protagoniza uma das cenas mais fortes do ano em “Remedial Battle Magic” (1×09). Stella Maeve entrega uma Julia que rouba a cena: rejeitada, machucada e determinada, ela carrega parte do tom mais dramático da série, abrindo portas para tramas ainda mais pesadas no futuro. Já Hale Appleman (Eliot) e Summer Bishil (Margo) começam como alívios cômicos, os “farreiros” de Brakebills, mas aos poucos revelam profundidade e um charme que tornam impossível não simpatizar com eles. E é claro que Arjun Gupta merece menção, trazendo a arrogância e o sarcasmo necessários para Penny, transformando-o em uma presença marcante e imprevisível — um personagem que constantemente rouba a cena, seja pela língua afiada ou pelo seu dom único de viajar entre mundos.

A primeira temporada de The Magicians é marcada pela sensação de promessa. Há problemas de ritmo, com alguns episódios arrastados e tramas que demoram a engrenar, mas quando a narrativa encontra seu tom – especialmente a partir do meio para o fim – a série se estabelece como algo muito mais ousado do que parecia no início. The Magicians apresenta uma fantasia que não tem medo de ser suja, dolorosa e cínica, ao mesmo tempo que mantém o fascínio de mundos mágicos e a nostalgia de livros de infância. Com um final chocante que deixa tudo em aberto e prepara terreno para reviravoltas ainda mais sombrias, a primeira temporada abre caminho para o que pode ser uma evolução impressionante nas temporadas seguintes.
Icaro Augusto
Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.